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PHDA e metilfenidato: mitos e realidade

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Resposta à vice-presidente da ordem dos psicólogs sobre hiperatividade, défice de atenção e consumo de metilfenidato em Portugal.

Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção 
responde a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos sobre hiperatividade, défice de atenção e consumo de metilfenidato em Portugal.

Sobre o artigo “Hiperatividade e Défice de Atenção – o problema estará nas crianças?”, da autoria a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, entende a SPDA – Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção prestar esclarecimentos já que as notícias em causa apresentam incorreções científicas que exigem ser retificadas publicamente.

O artigo assume como verdades incontornáveis uma série de equívocos e dados sem qualquer sustentação científica, nomeadamente:

  1. A PHDA é excessivamente diagnosticada em Portugal.
  2. É errado considerar a PHDA um problema médico e não um problema social e portanto suscetível de ser controlado por medicamentos.
  3. O problema não está na criança mas na família e na escola.
  4. A medicação, nomeadamente o metilfenidato é excessivamente prescrito, o seu uso é comprovadamente maléfico para as crianças, com impacto negativo no seu desenvolvimento.
  5. A duplicação de vendas é sinal de que tudo vai mal e não de que mais crianças estão a receber o tratamento adequado de que necessitam.
  6. A intervenção não farmacológica tem a mesma eficácia que a farmacológica.
  7. A solução deste problema está nos psicólogos portugueses

1. A PHDA não é excessivamente diagnosticada em Portugal, ao contrário do sugerido. Na verdade, a PHDA é uma perturbação que afeta, segundo os estudos epidemiológicos internacionais, 5-7% da população em idade escolar e 2,5-3% da população adulta. Os dados sobre o consumo de metilfenidato em Portugal apontam para percentagens de cerca de 1,7% de crianças medicadas. Este número é muito inferior ao que se verifica na maior parte dos países ocidentais.

2. A PHDA não é um diagnóstico criado com o propósito de medicar crianças “normais” por pressão dos pais ou dos professores devido à “excessiva competitividade na escola”. Ao contrário, não existe hoje qualquer dúvida na comunidade científica que a PHDA é uma condição neurobiológica, comprovadamente uma doença do cérebro com marcada etiologia genética, envolvendo disfunção de várias regiões específicas do sistema nervoso central, concretamente o córtex pré-frontal e suas conexões com os núcleos da base e cerebelo. Apesar da importância de fatores ambientais, nomeadamente o ambiente sociofamiliar, no agravamento ou proteção relativamente às queixas de PHDA, NUNCA são a causa primária do seu surgimento.

3. A PHDA não é um distúrbio benigno e, contrariamente ao que se pretende fazer crer, na ausência de diagnóstico e de acompanhamento adequado, pode causar problemas devastadores ao longo da vida. A disfunção cerebral associada à PHDA envolve importantes áreas neurocognitivas (função executiva, memórias de trabalho, linguagem, atenção e controle motor), prejudicando o funcionamento académico, familiar, ocupacional e social. Estas alterações neurocognitivas podem persistir ao longo da vida adulta com repercussão negativa nas taxas de produtividade e problemas no emprego e na família. Os adultos com PHDA que não foram devidamente acompanhados participam mais em atividades antissociais, consomem mais drogas ilícitas, são mais propensos a gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, múltiplos acidentes de viação, depressão, transtornos de personalidade, suicídio e criminalidade.

4. O metilfenidato (MPH) é o fármaco de primeira linha no tratamento da PHDA, de acordo com todas as guidelines internacionais, com efeitos positivos muito claros na redução da hiperatividade e impulsividade, no aumento das capacidades atencionais e cognitivas. Com mais de meio século de utilização regular em todo o mundo, o MPH é o psicoestimulante mais estudado e mais utilizado na criança, com um nível de eficácia próximo dos 80% e padrões de segurança ímpares no contexto dos psicofármacos. Atualmente está disponível em Portugal um segundo fármaco, não estimulante, a atomoxetina. Tem indicações clinicas precisas, como fármaco de segunda linha, concretamente no insucesso ou contraindicações ao MPH. Sabe-se hoje que o uso do metilfenidato (MPH) durante a idade escolar, tem um efeito protetor do sistema nervoso central, com redução da incidência de muitas complicações na vida adulta.

6. O enorme crescimento do uso de metilfenidato verificado nos últimos 10 anos não se deve a nenhum “problema de saúde pública” mas sim a um conjunto de fatores entre os quais: a) um maior reconhecimento dos sintomas por parte de pais, professores, psicólogos, médicos de família, pediatras, pedopsiquiatras, neuropediatras e da sociedade em geral; b) a intensificação do combate ao insucesso escolar e o acompanhamento mais próximo de alunos com dificuldades de aprendizagem; c) aumento do número de raparigas em idade escolar tratadas por sintomas de desatenção (que anteriormente não eram tratadas por não apresentarem hiperatividade); d) a enorme eficácia e segurança, a curto e a longo prazo.

7. Por fim alguns comentários sobre o papel dos psicólogos:

  • Sim, fazem falta mais psicólogos nas escolas portuguesas;
  • Sim, fazem falta mais psicólogos nas diferentes equipas das consultas hospitalares onde crianças com PHDA são avaliadas e acompanhadas:
  • Sim, os psicólogos podem ajudar na implementação da abordagem não farmacológica, isoladamente ou na grande maioria das vezes em associação à terapêutica farmacológica;

Mas que não persistam dúvidas quanto ao efeito do aumento do número de psicólogos na redução de diagnósticos e das taxas de medicação. Em países onde a falta de psicólogos não existe, a percentagem de crianças medicadas é superior. A nossa experiência confirma estes dados. Há uma muito maior referenciação de crianças para consultas de PHDA em escolas com maior apoio psicológico. Os psicólogos podem ajudar a detetar mais precocemente, avaliar e apoiar na implementação de medidas psico-educacionais, mas não curam um problema que é biológico e não reduzem as taxas de medicação, nem em Portugal nem em nenhum país do mundo.

Não me podendo logicamente comprometer com a adequação de todos os casos medicados em Portugal, não tenho a menor dúvida que, tal como se sugere neste e noutros artigos recentes sobre o tema, não há má prática médica generalizada com prescrição desnecessária de fármacos perigosos a crianças que deles não necessitam.

Por fim, é importante que todos os profissionais envolvidos no acompanhamento de crianças com PHDA, possam melhorar a sua formação nesta matéria. Desde já convido os interessados e a comunicação social a estarem presentes no 7º Simpósio de PHDA, que terá lugar nos próximos dias 3, 4 e 5 de maio em Coimbra, contando com a participação entre outros, do Professor Luís Rohde, presidente da World Federation of ADHD, que falará precisamente sobre o aumento exponencial dos diagnósticos de PHDA no mundo.

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